Todos os dias passo em frente a uma antiga escola primária onde uma inscrição em azulejaria tradicional portuguesa lembra aos passantes; “respeita a velhice pois ela é depositária da experiencia”.
A escola, hoje desativada, matem-se de pé como edifício mas simbolicamente ostenta orgulhosa a frase que é impossível não ler a quem fica no trânsito duma das entradas da cidade de Aveiro.
A velhice tem estado nas bocas do mundo estes dias, tantas foram as notícias de idosos que morreram sozinhos e desacompanhados nas suas casas, vítimas não da doença ou da idade que é inevitável, mas sobretudo sociedade que os desvaloriza.
Por isso a frase do início do texto bate forte nas nossas consciências. A sociedade que estamos a construir no mundo ocidental tem desdenhado dos valores ancestrais do respeito pelos mais velhos, cultivado o egoísmo e deixando que os sistemas sociais resolvam problemas que deveriam ser das famílias cuidar e do amor ao próximo motivar.
A crise em Portugal é bastante mais profunda que a falta de dinheiro ou da obscena despesa do Estado ou de negociatas corruptas. Portugal em pouco mais de trinta anos passou a ser um dos países europeus com menor taxa de nascimentos e maior número de idosos por mil habitantes. Num espaço de uma geração, sem guerra colonial para matar os nossos jovens ou imigração que nos levava os melhores, conseguimos, mesmo assim, delapidar o nosso melhor ativo; o nosso povo.
Temos desprezado a experiencia e a sabedoria dos mais antigos remetendo-os para quase guetos no fim da vida. Não conseguimos proporcionar aos jovens a estabilidade necessárias para que tenham motivação para procriar. Estamos a caminho da desertificação do País e a salvação será apenas a emigração de outros continentes. Se calhar um dia a profecia do Futre concretizar-se-á mas pelas piores razões. Virão charters de chineses mas para nos ocupar o território por causa da nossa miserável demografia.
António Granjeia, no 'Jornal da Bairrada' de 2 de Fevereiro de 2012
