domingo, 5 de fevereiro de 2012

QUERIDO DIÁRIO - X I I I

Zé Manel, beira-marense dos quatro costados, magarefe de renome e vendedor das melhores carnes de bovinos, caprinos e suínos da cidade, seguia perdido nos seus pensamentos enquanto enfrenta mais uma manhã de trânsito entre o a Capela do Senhor dos Aflitos e a Escola Secundária, para ir deixar a patroa no serviço, em Sangalhos.

"Estou indeciso entre a Sónia e a Samsunga, essa é que é essa!" pensa ele enquanto limpa distraidamente a cera do ouvido direito com a unha mais comprida do dedo mindinho, torcendo ligeiramente a cabeça para esquerda, em direcção à montra do Santos, alcançando por entre as frestas das grades, a vista dos últimos modelos de televisões a chegar ao país antes da onda de plasmas que já se vão vendo por todo o lado.

- "Gosto mais da Sónia que é mais larga e se a botar um bocadinho inclinada já dá bem para a gente ver os ângulos mortos das cabeçadas do Jardel à baliza adversária, e assim nem tinha que me esticar tanto que me incomoda aqui os abdominais" continua enquanto inspira profundamente e passa a mão pelos costados.

"Mas a porra da gaja é mais cara que a outra, e este mês é um mês tramado que o pessoal tá-se tudo a cortar nas carnes p'ra poder gastar nas prendas dos putos… ainda se o raio da sogra se finasse de vez! Sempre era menos uma boca a comer… e quem sabe não poderia vendê-la a retalho? Será que há quem compre órgãos de uma velha? Tenho que perguntar ao Bértolo, a ver se ele sabe de alguém que se dedique a este tipo de negócio.

Tirando as orelhas que já não funcionam porque é mouca que nem a porta de um curral, aquilo tem umas cordas vocais que são um portento, uns rins sempre a bombar que quase provocam enxurradas de cada vez que a mulher se alivia, o coração tem algumas falhas mas lá se vai aguentando, os olhos …, bem esses não porque já deram o que tinha a dar… talvez o fígado se a gente mentir e jurar pela sua santa alminha que a senhora nunca se meteu na pinga… era uma ideia, lá isso era! Já pensei até em depilá-la e esticá-la e depois pendurá-la ali ao pé das vacas, das cabras e das porcas, mas o raio da mulher pesa mais de uma tonelada…

Será que tem ao menos algum molar de ouro? Por acaso nunca lhe espreitei lá para dentro mas também arriscava-me a perder algum dedo e eles fazem-me falta!" rematou olhando para as mãos largas com orgulho de quem sente que chegou a algum lado à custa delas!

De repente, um carro vindo em sentido contrário fez uma ultrapassagem mais arriscada em frente aos Edifícios feitos pelo Quim (que linda vista se alcança das traseiras deste edifício para a Serra do Caramulo!), e o Zé Manel lá teve que estancar o seu bólide para evitar o choque frontal. Felizmente não chegou a tocar na viatura infractora, e foi então que o seu pensamento guinou repentinamente para o tempo que ainda demorará a ser construída a Nova Alameda, para que o trânsito flua em magestosas vias de sentido único: tinham-lhe dito que o parecer técnico para a demolição eram favas contadas, mas depois de ler o que o vinha no jornal, concluiu que afinal poderia não ser assim tão fácil, ficando mesmo com a ideia que nem sequer na altura das próximas eleições deveria estar pronta!

Refeito do susto, regressou então à imaginação que trazia desde que saíra de casa, quando um safanão o sobressaltou e o obrigou momentaneamente a prestar atenção a quem ali do lado lhe perguntava algo que não ouviu. "Sim mulher" respondeu pela afirmativa que normalmente era a sua opção mais segura. Mas hoje pelo enrubescimento da faces da sua cara-metade percebeu que tinha metido argolada!

- "Ai, afinal tu sempre queres que a minha mãezinha morra não é?!?!"

O coitado do Zé Manel levantou os olhos para o céu que hoje se adivinhava limpo e azulado e esforçando-se para não ouvir o resto lá carregou no acelerador para ver se encurtava um resto de viagem que, felizmente se aproximava do final!

Já um homem não pode ir perdido nos seus pensamentos descansado!

Alma de Deus

(Em reposição: anteriormente publicado no extinto http://blog.oliveiradobairro.net/)