quarta-feira, 25 de janeiro de 2012

O BONECO

Em Portugal, ninguém foi mais feliz a criar uma personagem política do que Aníbal Cavaco Silva.

Mal surgiu, nos anos 80, o boneco foi ridicularizado por toda a intelligentsia nacional – afinal, dez anos após a revolução, a personagem decidia reciclar para o regime democrático o mais forte e durável mito político português, António Oliveira Salazar.

Como o outro, Cavaco Silva era austero, poupado, determinado, de origens muito humildes, autoritário, odiava a política e os políticos, muito conservador e católico e colocava-se acima da plebe. E a plebe adorou: Cavaco foi um sucesso em 1985, um muito maior sucesso em 1987, repetiu a inédita maioria absoluta em 1991, deu cabo do seu sucessor Fernando Nogueira em 1995, perdeu as presidenciais em 1996, mas ganhou-as em 2006 por dez anos.

O que é verdadeiramente extraordinário é que o boneco tenha resistido sempre ao longo dos anos, sem mácula. Sucessivas investigações jornalísticas esforçaram-se para desmontar o mito, mas o boneco resistiu impávido, contra todas as evidências. Era falso que Cavaco Silva tivesse decidido candidatar-se em pleno congresso da Figueira da Foz – já andava a conspirar há muito com esse objectivo.

Era falso que as suas origens fossem pobres – o pai tinha negócios rentáveis no Algarve. Era falso que tivesse apoiado o PSD nas eleições de 2005 – escreveu o artigo da “moeda má” contra Santana Lopes e recusou-se a participar na campanha eleitoral alegando incompatibilidade com actividades académicas. Era falso que não fosse um político profissional; era falso que não tivesse ligações ao Banco Português de Negócios – o arguido Dias Loureiro era amigo pessoal e alguém arranjou umas acções ao preço da chuva.

Era falso que o governo passado estivesse a vigiar a Presidência da República (só se provou ser verdade que a Presidência da República tentou manipular jornais para criarem uma suspeita sobre o governo). Etc. etc.

Mas o boneco resistiu a tudo. O boneco era inatingível, uma espécie de sempre-em-pé, permanentemente com uma obsessão pelo dinheiro – até porque a propaganda sobre a falta dele e a urgência de poupar era indissociável da personagem.

Não é a primeira vez que Cavaco Silva lamenta os azares da vida financeira. Na sequência da história do BPN, afirmou “estar a perder muito dinheiro” e anunciou ao mundo: “Boa parte das nossas poupanças andam desaparecidas”.

Na história da falta de dinheiro para as despesas e da reforma dos 1300 euros, o boneco com 30 anos de vida, inesperadamente, ganhou vida própria, arranjou uma arma mortífera e matou o criador

Ana Sá Lopes, aqui