quinta-feira, 26 de janeiro de 2012

FALEMOS DE GEMINAÇÕES - PARTE I (O QUE ACONTECE EM OLIVEIRA DO BAIRRO)*

Na sua concepção original, o conceito de geminação significa a junção de duas vilas/cidades de países diferentes destinados a trocas culturais.

A geminação de cidades, é um conceito que tem como objectivo, criar relações e mecanismos protocolares, essencialmente a nível económico e cultural, através dos quais cidades de áreas geográficas ou políticas distintas, estabelecem laços de cooperação.
Geralmente, as cidades geminadas têm características semelhantes ou pontos e referências históricas comuns.

Este conceito assemelha-se à prática da correspondência na rede mundial, onde os amigos por correspondência são cidades e vilas no seu conjunto. Estes acordos levam ao estabelecimento e intercâmbio cultural, partilha de conhecimento, ensino (estudantes) e políticas empresariais entre outras actividades.

As geminações representam o quadro de uma verdadeira política europeia das colectividades locais, assente no conhecimento mútuo e no reforço dos laços no desenvolvimento e dialogo inter - cultural bem como as colaborações da mais variada índole. As geminações assumem-se ainda como um importante veículo com todos os povos e nas ligações com estes mesmos.

São inúmeras as vantagens deste tipo de relações entre os povos. Num mundo globalizado a interdependência é condição inerente à evolução da sociedade.

As geminações são uma resposta alternativa à competitividade da sociedade actual.

Dado que os problemas vividos a nível local não acolhem respostas cabais junto ao Estado - Nação, as cidades encontram na associação com outras, um importante instrumento de trabalho. É uma forma de desenvolvimento de solidariedade e soluções estratégicas.

Uma cidade é internacional quando diversifica os seus parceiros pelos continentes, potencia actividades de desenvolvimento e de cooperação intermunicipal no espírito das convenções internacionais. O movimento de geminações permite desencadear novos conhecimentos e colaborar com pessoas e entidades de outros países para um melhor conhecimento mútuo, futuro suporte para um intercâmbio inter-disciplinar que deve envolver todas as associações do município.

Vem isto a propósito de uma questão abordada na última reunião do executivo municipal de Oliveira do Bairro, relativa ao facto de este município ter acordos de geminação com duas cidades estrangeiras, uma francesa, Lamballe (18 de Julho de 1998), e outra angolana, Benguela (19 de Setembro de 2000); só que, se em relaçâo à geminação com Lamballe têm sido implementadas e concretizadas algumas trocas de experiências, já em relação a Benguela nada tem acontecido, e o acordo de geminação ainda não passou da intenção à prática.

Como se sabe, a emigração faz parte da identidade e da idiossincrasia nacional. Desde que Portugal existe como país, sempre os portugueses emigraram: confinados a um pedaço de terra, sem grandes riquezas, a ideia foi sempre a de ir em busca de melhores condições de vida, de riqueza, de bem-estar ou mesmo atrás de simples aventuras.

Esta não é pois uma opção que os portugueses tenham tomado depois de terem ouvido Passos Coelho, o primeiro-ministro do seu próprio governo, declarar que os jovens teriam de emigrar principalmente para países de expressão portuguesa. 

E por isso, numa altura em que Angola está a acolher uma nova vaga de emigrantes, muitos deles jovens com formação superior, esta também pode ser uma opção de vida para muitos oliveirenses, que bem poderia ter na geminação dos municípios de Oliveira do Bairro e Benguela uma alavanca que os ajudasse a resolver as dificuldades burocráticas que, entretanto, se colocam aos que querem ir para Angola.


Esta perspectiva constitui um recuo em relação àquela que prevalecia em Abril de 2007 por ocasião de uma mostra de pintura da autoria de Kátia Pires, uma jovem natural de Benguela mas residente em Albergaria a Velha, que esteve patente na sala de exposições da Câmara Municipal de Oliveira do Bairro. Nessa ocasião em que o presidente da câmara dizia que Benguela é terra geminada com Oliveira do Bairro e que a intenção da câmara era intensificar as relações da geminação. “É com duplo agrado que registo este facto”, sublinhando que a autarquia foi convidada para ir a Benguela e que “a câmara de Oliveira do Bairro pretende implementar e dignificar essa geminação”.

Ora, se em 2007 a intenção era implementar e dignificar essa geminação, não parece que faça algum sendido dizer, passados menos de 5 anos, que se desconhecem as motivações iniciais da mesma.

Sob pena de esta alteração de discurso reverter em prejuízo dos munícipes do concelho interessados em emigrar para Angola, algo terá que ser feito para que possam beneficiar das prerrogativas inerentes ao acordo de geminação com Benguela.


Aqui chegados, o que há a concluir é que a realidade nem sempre é aquela que por vezes se faz crer que é.

A título de exemplo, basta conhecer o que tem sido feito pelo município de Oeiras, que também tem acordo de geminação com Benguela, para se perceber o 'investimento' que também pode ser feito pelo município de Oliveira do Bairro no acordo de geminação com uma cidade que está localizada a menos de três dezenas de kms da cidade do Lobito, cujo porto comercial manuseou, no ano de 2011, mais de dois milhões e setecentas mil toneladas de mercadorias, sendo o segundo porto de carga de Angola.

Importa recordar que na passada semana o ministro Miguel Relvas liderou uma comitiva de membros do Governo, jornalistas e gestores que esteve em Angola para vários dias de contactos e contratos com várias entidades angolanas, que teve como ponto alto um debate televisivo num programa que a RTP chamou "O Reencontro Portugal-Angola", centrado nas relações políticas e económicas, bem como no desporto e cultura entre os dois países, e no qual participaram governantes e empresários portugueses e angolanos.

Nessa visita, a comitiva esteve em Benguela, onde foram assinados acordos de parceria entre as televisões portuguesa e angolana, e entre a LUSA e o grupo Medianova, o maior projecto privado de comunicação social angolano.

E porque a dinamização do acordo de geminação entre Benguela e Oliveira do Bairro é um passo que só depende das partes envolvidas, essa é uma também uma oportunidade de mostrarmos de que matéria somos feitos, de testarmos a nossa fibra, a nossa capacidade de trabalho, perseverança e resiliência.

Por decisão pessoal, o subscritor não escreve segundo as regras do novo acordo ortográfico.

*versão integral do artigo publicado na pág. 2 da edição de hoje do 'Jornal da Bairrada'

PS: pela sua pertinência, apresentam-se de seguidas quatro textos sobre 'GEMINAÇÕES'