O ano que aí vem promete ser propício a muita moral pública para esconder vícios privados. O preço da crise também se vai pagar em grandes pregões mais ou menos aldrabões.
Quando esta crise principiou disse para os meus botões: "Pode ser como a chuva, que ajude a limpar a poluição da atmosfera".
Hoje não estou certo que ela nos traga mais honestidade nos negócios e nas relações, em especial as que se baseiam no dinheirinho.
E, no entanto, estou certo de que é justamente na honestidade das relações que reside o principal pé-de-meia de empresários, quadros dirigentes e trabalhadores.
Por efeito de várias circunstâncias, incluindo a do crescimento do início deste milénio, a actividade económica em Portugal assentou muito nos chamados quadros superiores. Gente que existe por ter a confiança do investidor, mas que deve poder ter também as graças dos subordinados para garantir sucesso no seu trabalho. Que é gerir, dirigir, garantindo que o produto ou o serviço tenha qualidade suficiente para merecer a confiança dos clientes.
Nesta cadeia que, inevitavelmente, só faz sentido se houver clientes, não faz qualquer sentido que um quadro dirigente se queixe publicamente da consciência de outrem, muito menos se for cliente.
O cliente é o cliente e o mercado é o mercado. Pode discordar-se disto, mas o que não se pode é ser fornecedor, ser cliente, enfim, estar no mercado e reclamarmos que poderíamos ser melhores, mais competentes e mais competitivos se os outros tivessem mais consciência.
E o que pode ser este peso na consciência?
Pode ser muita coisa. O que não pode ser é a expressão pública de quem gere ou dirige para alijar responsabilidades. Porque a consciência, sobretudo a pesada, é uma questão do foro pessoal. Quando se torna transmissível deixa de servir para expiar pecados e pode mesmo transformar-se numa desculpa indigente.
O problema é que nas empresas públicas e privadas a crise instalou-se e vai aprofundar-se. Pelo que de nada servirá a patrões e empregados as pesadas consciências dos quadros dirigentes. E estes, para merecerem o pão, vão ter mesmo de fazer pelo estatuto, cuja natureza não é seguramente o de atirar culpas para os outros.
Quem gere e dirige deveria ser capaz de resistir à tentação de culpar os outros e transformar a consciência numa espécie de serviço público do que quer que seja.
Leo Ferré, que foi um ícone da Esquerda francesa e europeia, defendia que "a moral é sempre a moral dos outros". E fez desta tese uma enorme canção revolucionária. Por ser verdadeira...
Manuel Tavares, aqui
