domingo, 1 de janeiro de 2012

10 ANOS DE EURO: O TEMPO DE MOEDA AO AR...

Hoje o euro faz 10 anos, mas nenhum país europeu está em condições de abrir uma garrafa de champanhe (nem sequer de um espumante barato).

Em nenhum país da eurolândia haverá lugar a fogo de artifício ou a brindes comemorativos – muito menos na Grécia em transe ou em Portugal a caminho disso.

A década do euro foi uma espécie de década perdida para a economia portuguesa. A esta distância, é fácil concluir que não tínhamos economia para partilhar uma moeda com o gigante industrial da Europa, a Alemanha, quando essa moeda foi desenhada à imagem do marco alemão e o Banco Central Europeu à imagem do banco central alemão. Se Portugal fosse obrigado a abandonar o euro de um momento para o outro, seria uma tragédia. Permanecer nas circunstâncias actuais não é um drama menor: o que a Europa manda é que o nosso “ajustamento” seja feito através da redução de salários, uma vez que é impossível desvalorizar uma moeda, para tornar os nossos produtos apetecíveis e mais baratos para aumentar as exportações.

Mas só quando tivermos os salários equivalentes aos que estão em vigor na República Popular da China seremos finalmente “competitivos”. E, no entanto, o salário médio português situa-se nos 700 euros – há uma grande maioria de portugueses que não entende o que quer dizer o Presidente da República quando os acusa de terem levado “uma vida fácil” ou o primeiro-ministro quando faz a litania do “viver acima das possibilidades”.

É hoje também consensual que a criação do euro foi uma espécie de bebedeira colectiva europeia. Não houve uma alma com poder efectivo no círculo europeu que avisasse sobre a impossibilidade da existência de uma moeda única sem união política. Nessa altura da criação do euro, os dirigentes europeus decidiram varrer o lixo para debaixo dos móveis, confiando em que lixo que não se vê não se sente.

Mas o lixo estava lá todo e, 10 anos depois, foi impossível mantê-lo em paz por baixo da cómoda: os europeus sempre foram, no fundo, eurocépticos. Há poucos europeus disponíveis para apoiar uma união política (veja como em Portugal, nas últimas eleições para o Parlamento Europeu, a simples menção a um imposto europeu deu cabo da campanha de Vital Moreira). Se os portugueses são eurocépticos nestas coisas, imagine-se os alemães.

Como uma união política democrática era impossível de constituir, a Europa decidiu suspender a democracia – como Ferreira Leite sugeriu em 2008 para horror de Passos Coelho – e assumir que o duo Merkozy decidiria o futuro e nomearia governadores, como fez na Grécia e na Itália.

O tempo é de moeda ao ar.

Ana Sá Lopes, aqui