quinta-feira, 22 de dezembro de 2011

O SENHOR INFELIZ E O SENHOR DESCONTENTE

Um dos melhores serviços públicos europeus de comunicação social é a edição online da Der Spiegel internacional.

De acesso universal, escrita em inglês, se não se lê o futuro na Der Spiegel, pelo menos entende-se o zeitgeist.

Ontem, a Der Spiegel online publicou uma entrevista a dois economistas alemães de topo, um deles conselheiro do governo Merkel, o outro um professor emérito na Universidade de Tübingen.

O conselheiro do governo Merkel, Peter Bofinger, é o mais europeísta. O professor emérito, Starbatty, foi desde sempre contra o euro, chegou a avançar com uma iniciativa anti-euro e foi contra o resgate da Grécia.

Os dois estão em desacordo em quase tudo, menos numa coisa: “As medidas de resgate têm que ser feitas já” e “o tempo é curto”. Portanto, há acordo para a urgência de se fazer alguma coisa relativamente à qual (essa coisa urgente) nenhum dos dois se entende. Este é o zeitgeist e contra isso é muito difícil arranjar a tal bazuca para defender o euro.

O conselheiro de Merkel defende que a Europa funcione como um todo, que a Alemanha aceite os eurobonds (em troca de uma união orçamental mais apertada) para que países fracos como Portugal possam pedir empréstimos a juros razoáveis – uma vez que estão acorrentados ao facto de não poder desvalorizar a moeda e condenados a ver os seus salários descer cada vez mais, numa espiral de loucura. O economista emérito acha que os eurobonds e a injecção de dinheiro no BCE “são pecados mortais”, que os países voltariam a endividar-se à maluca e que “seria melhor reduzir a união monetária a um núcleo duro dos que podem sustentar o euro”. Starbatty defende que “os programas de resgate, que estão a violar os tratados, devem ser interrompidos” e que “os países que acreditam que devem fazer parte do euro têm que se esforçar e aqueles que preferem sair devem fazê-lo”. O membro do painel de economistas que aconselha o governo Merkel teme a “reacção em cadeia”, mas o economista emérito diz que é preciso aceitar a realidade de que há países que não resolverão os seus problemas na União Monetária. O conselheiro de Merkel acha que os problemas não foram enviados por Deus, mas pela escalada de juros, por exemplo, na Itália, a segunda economia mais sólida do G-7 a seguir à Alemanha. O emérito diz que a Itália é que tem culpa disso.

Resumindo: o emérito acha que é melhor a Grécia (e Portugal, certamente) recuperar a sua moeda, fazendo com ela o que quiser, seguindo eventualmente o caminho da Argentina e deixando a Alemanha em paz, podendo recuperar de um euro “desvalorizado” que tem agora. “É melhor ter um fim com horror do que um horror sem fim”, diz o emérito. O conselheiro de Merkel acha o emérito “ingénuo”, que ignora “a reacção em cadeia” e que o rebentamento da zona euro iria deixar a Alemanha à deriva, sozinha, no “oceano da globalização”. Atira uma metáfora sobre como não devemos deixar sair o génio da garrafa.

É muito difícil ser europeísta na Europa. Em 1956, Churchill dizia que os Estados Unidos da Europa teriam que nascer de “baixo para cima”. Mas essa utopia existia só “em cima” e claramente acima das nossas possibilidades

Ana Sá Lopes, aqui