terça-feira, 20 de dezembro de 2011

BOM PROVEITO

O tempo corre ao seu ritmo, quando a gente não tem pressa. E é tão bom vaguear por aqui, longe, sem ter de bater à porta de ninguém e, quando batem à nossa, consoante quem chega, abri-la com prazer ou fechá-la de vez!

Quase sempre, porém, nem é necessário o incómodo: o cão ladra, e fica-se logo a par de quem aí vem: os cães sabem muito.

1. Sem rádio nem televisão, isto é, sem notícias nem todas as outras tralhas que a TV nos impinge e com apenas, de vez em quando, um jogo de bola (do FC Porto), um Jon Stewart e um ou dois filmes noite fora, mas sempre com uma caterva de jornais ao acordar, vi-me, no último "Expresso", perante mais um excelente, lúcido e até (dadas as circunstâncias) corajoso artigo do Miguel Sousa Tavares, de resto sobre um tema que eu tinha programado aflorar aqui: José Sócrates, o seu ministério e a (hoje tornada célebre) frase que proferiu há dias. Pelo que, esgotado esse tema pelo Miguel, nada mais me resta do que remeter-vos para a página 7 do caderno principal do acima citado semanário. Desejando que isso vos faça bom proveito, é claro.

E, a talhe de foice, remeter-vos igualmente para uma entrevista, também excelente, e ao mesmo "Expresso", do Paulo Bento: um homem que sabe o que quer, tem carácter e não mendiga nada a ninguém. Sim senhor.

Já em entrevista ao "Público", Luís Figo não cessa de mostrar o seu - pelo visto - desgosto de ser português. Mas até que enfim que, por razões sobretudo fiscais, não políticas, há um emigrante rico que... decide emigrar! Sem contudo - era o que faltava - descobrir quaisquer culpas em si próprio. Pelo que, como diria Sartre, "o mal continua a ser os outros" e, como diria a generalidade dos franceses, "on est jamais aussi bien servi que par soi-même". O que de resto é verdade.

2. Escrevi aqui há umas duas semanas que, apesar de as eleições serem a base da democracia, elas, em particular aquando da aproximação de um acto eleitoral com desfecho incerto, a desvirtuam tanto que lhe comprometem o seu significado essencial, tal é o vale tudo contra os adversários, o rol de promessas que se sabe à partida que não são para cumprir, os golpes baixos e os dinheiros envolvidos, etc. etc. etc. Assim, Nicolas Sarkozy, a denegrir o seu adversário principal - François Hollande - e a tentar sacar os votos do eleitorado Le Pen (de extrema- direita, para quem não saiba), tal como assim Pedro Passos Coelho, igual ao seu irmão-valet (de Angela Merkel) francês, a fazer por cá aquilo que disse que não faria (até Eduardo Catroga se espanta: "Temos uma carga fiscal excessiva que está a afectar o rendimento disponível das famílias e a competitividade fiscal do país. A vida não é essa", e Catroga é considerado o pai do programa do PSD!), ambos a agudizarem o mais possível a luta pelo poder. Só que parece que a política é isso mesmo! Como os negócios. Por exemplo, no caderno de Economia do "Expresso" de sábado, sobre a privatização da EDP, este título: " Brasileiros jogam tudo por tudo. A cinco dias da decisão final, intensificam-se os lóbis e aumenta o volume de contra-informação". Para (o mesmo título) concluir: "Transparência precisa-se"! Transparência?!!! Mas em que mundo vive quem tal título escreveu?!!! Não faltava mais nada! Como disse um dia alguém, parafraseando Aquilino: quando os lóbis uivam ...

3. O que nos vale são os analistas e comentadores, que sabem tudo e mais alguma coisa: uns deuses a debitar, lá do Olimpo em que se instalaram, "verdades" sobre" verdades", infelizmente, para nós, incapazes de apontar um caminho, revelar uma solução. A respeito dessa gente, estou como o "Canard Enchaîné" quando "retrata"da seguinte forma as agências de notação: "Enganaram-se nas contas - em 2000 biliões de dólares - são incapazes de prever as crises e só agravam as que já existem. E no entanto são elas quem dita as leis".

Para mal dos nossos pecados, um retrato perfeito.

4. Glosando a (tornada célebre) frase de Sócrates (José) sobre o pagamento (ou não pagamento) das dívidas dos países de todo o Mundo, em especial os mais pobres, Mário Crespo cometeu um artigo no qual aborda esse assunto como se se tratasse de uma ofensa pessoal. E, se calhar, com alguma razão, uma vez que ele parece ter considerado que o ex-primeiro-ministro tem para com ele uma dívida (operação código Washington) que nunca saldou. Ora - não há dúvida - essas coisas deixam marcas profundas.

António Tavares-Teles, aqui