quarta-feira, 28 de dezembro de 2011

A ALDEIA DO SEXO ORAL

No café, logo de manhã, aparecem sempre duas personagens, dois cartoons com pernas, brincos e permanentes.

A conversa deste duo catita é sempre a mesma: A Casa dos Segredos. Não se calam com "aquilo". Mas, atenção, estas senhoras não elogiam "aquilo", não se divertem com "aquilo", não são fãs daquilo. Nada disso.

Estas guardiãs da moral e do gosto estão sempre criticar "aquilo", porque "aquilo", ao que parece, "é uma pouca vergonha". E todos os dias têm histórias novas que comprovam a irreparável pouca vergonha do fenómeno.

Ontem, a fúria girava em redor de um fellatio que uma concorrente resolveu aplicar a outro concorrente . Uma profunda ignomínia, diga-se. Ora, apontar o dedo à óbvia incoerência das senhoras (se é mau, não vejam todos os dias) seria fácil demais. Apesar de tudo, existe uma explicação bem humana para aquela atitude hipócrita.

Há uns anos, vi um documentário da BBC (com John Cleese) que defende uma tese imbatível: o star system e os big brothers respondem a uma necessidade do homem urbano, a necessidade de reviver os laços de convivialidade da aldeia. Ao sair do campo para a cidade, o homem ocidental perdeu os laços de vizinhança, perdeu o contacto com rostos conhecidos. O dia a dia na cidade é um entra-e-sai de desconhecidos. O star system (cinema, TV, revistas) respondeu a este vazio. O famoso funciona como o vizinho de toda a gente, o elo de ligação entre átomos urbanos. Numa evolução recente, os big brother transformaram desconhecidos em famosos de aldeias mediáticas. E a Casa dos Segredos é isso mesmo: mais uma aldeia seguida pelas massas urbanas e suburbanas do país.

Portanto, aquelas duas senhoras falam mal dos concorrentes da Casa dos Segredos como se estivessem a falar mal dos filhos dos vizinhos da aldeia. Criticam a menina do fellatio com o empenho que colocariam na crítica à filha desnaturada do padeiro lá da terra. Mas, já que estamos aqui, gostava de deixar um conselho às minhas queridas vizinhas: experimentem sorrir para os vossos vizinhos reais, aqueles que estão no ali mesmo no café ou na rua, experimentem recriar - no bairro lisboeta - o ambiente da aldeia. Experimentem, que não dói. Ou, então, visitem mais vezes as aldeias, as reais

Henrique Raposo, aqui