segunda-feira, 31 de outubro de 2011

POPULAÇÃO MUNDIAL: CHEGÁMOS AOS SETE MIL MILHÕES

É em África que a população mais cresce mas não são as pessoas do Uganda ou da Nigéria que estão a esgotar os recursos mundiais. Ocidentais são os maiores responsáveis pelo desperdício e fome que existem em todo o planeta.

O mundo chegou aos sete mil milhões de habitantes, segundo as Nações Unidas, e aqui para diante existem previsões para todos os gostos. Há quem preveja um crescimento exponencial da população nos próximos 50 anos e há até quem calcule que é possível que a população humana comece a dar sinais de uma futura regressão numérica. São previsões difíceis de confirmar, até porque dependem de um número elevado de viariáveis.

Hoje, enquanto muitas pessoas vão estar mais ocupadas em celebrar e vestir-se a rigor para o Halloween, há outros preocupados com o facto de o planeta estar a rebentar pelas costuras e não dar para tanta gente. Isto para não falar das previsões apocalípticas exotéricas, em que a Natureza se vai virar contra a humanidade e a raça humana vai acabar no meio das catástrofes.

"O dia dos sete mil milhões é um lembrete sóbrio sobre a situação do nosso planeta. Estamos a aumentar 10 mil pessoas por hora. A previsão mediana da ONU é de 9,3 mil milhões em 2050, mas o intervalo apresenta uma variação de 2,5 mil milhões – total da população mundial em 1950 – dependendo de como as coisas evoluírem", escreveu recentemente Roger Martin, director da ONG Population Matters, no jornal britânico "The Guardian". "Cada pessoa adicional precisa de água, alimentos e energia e produz mais lixo e poluição, aumenta o nosso impacto total no planeta e diminui a quantidade de recursos disponíveis para cada um – os ricos muito mais do que os pobres. Por definição, o impacto total e o consumo são trabalhados através da medição da média por pessoa multiplicada pelo número de pessoas. Assim todos os problemas ambientais (muitos económicos e sociais) são mais fáceis de resolver com menos pessoas e, em última análise, impossíveis com ainda mais", acrescentou.

Como sublinha a revista "Time", desde os anos 70, que o aumento da população mundial não era tão falado. Na altura, com o crescimento exponencial da Índia e da China, estavam em voga as teorias do reverendo Thomas Malthus (1766–1834), que argumentava que a população mundial iria ter de regressar a condições de vida ao nível da subsistência devido ao excesso de pessoas na Terra. O tema esteve desde então mais ao menos adormecido, nos anos 70 do século XX foi repegado pelos relatórios de sustentabilidade do planeta, que ganharam novo fôlego devido à crise financeira mundial. Para os que cá estão há já algum tempo e sem querermos ser tomados por gananciosos a questão é simples, mas a resolução, em termos práticos quase impossível.

Concentre-se. Pense no mundo há 12 anos, quando o planeta alcançou os 6 mil milhões de habitantes. Já lá está? Pronto, avancemos, então. Havia menos pessoas, menos carros, mais espaço. A economia mundial não andava pelas ruas da amargura, o mercado de trabalho não estava sobrelotado, ainda havia empregos para a vida. Bons tempos, certo? Mas, não se iluda. A culpa de estarmos como estamos também é provavelmente sua.

Agora existem mais bocas para alimentar, mais pessoas sem trabalho e, paradoxalmente, cada vez mais recursos são desperdiçados – e aqui entra a natureza humana em jogo, quantos mais somos, mais porcaria fazemos. Por isso, alguma coisa vai ter de mudar. Temos as condições para cabermos todos cá dentro, mas tal como numa casa de família, têm de existir cedências e muita organização. Segundo Joel Cohen da Rockefeller University, em declarações ao "The New York Times" temos comida, água e outros bens essenciais para alimentar cada um dos sete milhões de habitantes e sem que nada falte a ninguém. Ouviu?

"Na verdade o mundo é fisicamente capaz de alimentar, abrigar e enriquecer muitas mais pessoas a curto prazo. Entre 1820, no início da era industrial, e 2008, quando a economia mundial entrou em recessão, a produção económica por pessoa aumentou onze vezes", defende. "A esperança média de vida triplicou nos últimos milhares de anos, para uma média global que ronda os 70 anos. O número médio de filhos por mulher desceu em todo o mundo para cerca de 2,5 em comparação com os 5 em 1950. A população mundial está a crescer 1,1% por ano, metade da percentagem alcançada durante o pico dos anos 60. A desaceleração da taxa de crescimento permite às famílias e sociedades concentrarem-se no bem-estar das suas crianças em vez de na quantidade", acrescenta.

Então, se não existe drama no aumento da população, onde está o problema? Em quem produz e quem consome. Por outras palavras, quem desperdiça. Muitos dos textos sobre o crescimento da população mundial concentram-se na África Subsariana e nos países em de-senvolvimento. Mas não são as pessoas do Uganda ou da Nigéria que estão a esgotar os recursos mundiais. "A população, especialmente no mundo em de-senvolvimento está a crescer, e algumas pessoas continuam concentradas nisso. Observam que as populações de países como o Quénia estão a aumentar rapidamente e dizem que isso é um grande problema. Sim, é um problema para os mais de 30 milhões de quenianos, mas não é um fardo para o resto do mundo, porque os quenianos consomem muito pouco. O verdadeiro problema do mundo é que cada uma das 300 milhões de pessoas nos EUA consome tanto como 32 quenianos. Com uma população dez vezes maior, os EUA consomem 320 vezes mais recursos do que o Quénia", escreveu Jared Diamond, professor de geografia na Universidade da Califórnia e autor dos livros "Collapse" e "Guns, Germs and Steel", no "The New York Times".

Um milhão de pessoas passa fome todos os dias. E o desespero desta fatia da população mundial não se deve ao facto do planeta ser incapaz de produzir comida com fartura para todos. Cerca de metade dos alimentos produzidos em todo o mundo acabam por ser desperdiçados ou apodrecer nos campos, supermercados ou nos nossos frigoríficos. Por isso, e com o individualismo capitalista de cócoras, está na altura de repensarmos não só como gastamos o dinheiro, mas também como usamos os recursos. As facturas, essas, já estamos a pagar.

Sara Sanz Pinto, aqui