1.Muitos analistas criticaram Cavaco Silva pelas declarações críticas em relação às medidas de austeridade previstas no OE 2012, alegando que estas funcionariam como fonte de legitimação das manifestações de rua e dos vários movimentos de “indignados” que já se proliferam por aí. Bom, eu entendo que se critique as declarações do Presidente da República e, evidentemente, respeito quem manifeste esse ponto de vista (embora discorde profundamente).
O que é verdadeiramente aterrador é o argumento invocado: até parece que foram as declarações de Cavaco Silva que desencadearam um profundo sentimento de revolta e indignação entre os portugueses! Não: a revolta e a indignação foram geradas pelas medidas (muitas) socialmente injustas e com efeitos devastadores na economia que, no próximo ano, tornarão ainda mais difícil a vida dos portugueses. O Presidente da República, que deve ser o Presidente de todos os portugueses, apenas deu eco ao sentimento nacional. E limitou-se a referir a evidência: os sacrifícios exigidos aos portugueses (ou a alguns portugueses?) há muito que ultrapassaram os limites admissíveis. Como já explicámos em texto anterior, o Presidente não pretendeu incentivar a contestação nas ruas, mas sim evitá-la. Porquê? Porque deu um sinal de que o descontentamento e a indignação encontram resposta dentro do quadro institucional do sistema. O mesmo é dizer que o Presidente, no exercício do seu poder moderador, estará atento à execução orçamental às suas consequências económicas e sociais. Promulgará, mas não se responsabilizará pela política financeira e económica do governo.
2. Dito isto, centremos a nossa atenção no movimento dos “indignados”. Será ele legítimo? Certamente: o direito de cada um exprimir – individual ou colectivamente – as suas ideias e posições políticas goza de protecção constitucional e é inerente ao conceito de democracia. Mesmo a democracia representativa tem de garantir um espaço de liberdade para cada um participar directamente na vida política: a soberania reside no povo. É esta a sua fonte originária. Ora, nós jovens, tal como os mais idosos numa dimensão qualitativamente diferente, somos os mais afectados. Desde logo, porque tendem a ignorar ou a desprezar as nossas opiniões – há uns certos senhores, já com “barbas” políticas maiores que as do Pai Natal, atendendo aos anos que ocupam o nosso espaço político, que insistem que têm um direito natural a exercer o poder em Portugal. E a dominar o espaço mediático nacional, controlando a opinião pública e publicada no país de que tanto gostamos. Esquecem-se, todavia, que seremos nós, jovens, a pagar a factura dos erros de governação, da falta de visão estratégica, da imprudência destes senhores (quarentões para cima) que nos governam. Nem se diga que a idade é sinónimo de experiência: é que experiência e competência não se confundem, como os nossos políticos (e o governo em particular) tratam de demonstrar dia após dia (com muita pena nossa!). Há jovens com grande mérito académico e profissional que merecem ter uma palavra na construção do futuro de Portugal. E construir o futuro pressupõe consolidar o presente. Amanhã já é tarde demais: hoje precisamos destes jovens. Hoje. Já. Agora. Não esperemos. Há jovens que viram a cara ao medo e não hesitam em arriscar, criando novas empresas, novos nichos de mercado, colocando Portugal no mapa da inovação mundial. Portugal precisa destes jovens para abandonar a política do imediato, do tacticismo atrofiante – e levar esse espírito inovador para as esferas de decisão política em Portugal. Assim venceremos. Assim seremos um país melhor. Assim, cumpriremos Portugal.
3. Precisamos de jovens que subiram na vida pelo seu mérito, pelo seu talento, que sempre dispensaram os “padrinhos”, as “cunhas”, os joguinhos partidários para subir na vida. Desta forma, Portugal será mais competitivo, um país mais transparente, menos permeável à corrupção. Porque tem mérito sabe que não precisa de prestar favorzinhos para ver a sua qualidade reconhecida e compensada – esta é a verdadeira “ética republicana”. A ética do talento e da responsabilidade.
4. Em suma: eu apoio o movimento dos indignados. Eu próprio sou um indignado. Porque me deixaram um país sem oportunidades, sem esperança, que despreza os maiores talentos vindos da vida académica e profissional. Nós não somos uma geração à rasca: somos uma geração lixada. Note-se que na manifestação do passado fim-de-semana, não estavam apenas hippies e extremistas do Bloco: estavam pessoas, como a Mariana e o José, que acabaram os seus cursos com excelente nota…mas não conseguem arranjar emprego. Não são filiados em nenhum partido; não têm padrinhos, nem madrinhas. Estes dois jovens são um retrato do Portugal actual – e que Passos Coelho dificilmente terá capacidade para mudar. Até quando seremos assim?
João Lemos Esteves, aqui
