Escrevo contra corrente, escrevo contra a demagogia. Recuámos ao pós-revolução e fazemos de conta que vamos fazer com que os ricos paguem a crise.
Paremos por minutos para pensar num simples facto:
- Em França, uma taxa de 2% ou 3% aplicada aos mais ricos deverá gerar uma receita de 300 a 450 milhões de euros. Isto é em França, onde há muitos ricos com muito dinheiro. Imagine-se que em Portugal, onde há alguns ricos com algum dinheiro, se consegue uma receita de 50 a cem milhões. Isso equivale a qualquer coisa entre 0,03% e 0,06% do PIB. Dá para perceber que não são os ricos que vão pagar a crise.
Não resolve coisa nenhuma e esconde o que de verdadeiramente importante há para resolver. Em Portugal, com a sucessão de PEC, o trabalho paga cada vez mais impostos, enquanto o capital especulativo passa férias nos paraísos fiscais. Para termos ideia do que estamos a falar, convém recordar que este ano têm estado a voar em direcção aos paraísos cerca de nove milhões de euros por dia. E isto foi antes de começar a discussão sobre o imposto para os ricos. Imagine quantos milhões estarão a voar no momento em que lê esta crónica. É que os governos nunca querem taxar o capital, com medo de que ele fuja, mas ele está sempre a fugir.
O que há a fazer para colocar os ricos a contribuir para uma sociedade mais equilibrada não passa por lhes sacar uns milhões com que alimentamos a nossa fobia à riqueza (dos outros), mas sim pela criação de uma política fiscal estável que os incentive a investir a riqueza que geraram. A discussão sobre o imposto dos ricos não enriquece, aliás, o debate político e social. Não se faz distinção alguma entre os que enriquecem a trabalhar e transformam a riqueza em novos postos de trabalho e os que enriquecem a especular e a fazer desaparecer o dinheiro para os destinos paradisíacos.
Para que não fiquem dúvidas: se quiserem fazer um referendo sobre a contribuição extraordinária de todos os ricos, e não só dos que trabalham, eu voto sim. Devem ter por lá mais uns milhões que não fazem mossa nas suas poupanças. Mas se querem fazer política a sério, talvez não fosse má ideia taxar ordinariamente os ricos filhos da especulação, dando ao mesmo tempo incentivos fiscais aos ricos filhos do trabalho e que investem no desenvolvimento económico e social do País. Ninguém me encomendou o sermão, mas julgo ter percebido onde quer chegar Américo Amorim.
E os ricos podem ser mais solidários? Podem e devem. Warren Buffett, que lançou este debate no mundo Ocidental, não luta por um imposto extraordinário. Ele, que utiliza a quase totalidade da sua fortuna para ajudar os outros, o que pede é uma mudança consistente de uma política de mimos que dura há décadas.
Paulo Baldaia, aqui
