Mihai foi apanhado com uma faca de cozinha com lâmina de 20 centímetros, não a cortar batatas ou legumes, mas a passear num centro comercial.
Problema de um homem que há uma semana vive num filme de ameaças e perseguições.
Mihai Nonoaca bem que pode agradecer ao seu olho negro. Está bem que as costelas saíram mais lesadas, mas essas a juíza não vê. Aquela surra bem que lhe fez a vida e um olho negros, mas o hematoma bem que o pode ter salvado em tribunal. A juíza, pelo menos, acreditará tanto nas palavras como nas feridas. "As suas declarações parecem credíveis, o hematoma também, a menos que se ande a flagelar ou a auto-infligir estas lesões", concluirá.
Mas o mais importante é que Mihai tem agora uma dívida de sangue para com os agentes da PSP que se cruzaram no seu caminho, naquela bendita tarde de domingo. Não fossem eles e sabe-se lá se a esta hora estaria vivo.
Calma, o Mihai já explica. É um homem baixo e espavorido, com os olhos a crepitar, olhar desconfiado sempre por cima do ombro. O romeno de 32 anos - os últimos cinco passados em Portugal, o último nas ruas junto à Gare do Oriente e em Moscavide - foi encontrado no domingo, no centro comercial Vasco da Gama, pelas 15h30, na posse de uma arma branca. E, claro, proibida. Tratava-se, na verdade, de uma faca de cozinha, mas o contexto nada tinha a ver com culinária. Mihai não estava a descascar batatas, a fatiar pão ou a cortar legumes. Sim, estava num centro comercial.
E atendendo ao local onde a faca estava guardada também não terá sido por esquecimento que a faca saltou da cozinha para a sua posse. Mihai trazia a faca com uma lâmina fixa de 20 centímetros - o dobro da dimensão proibida por lei - embrulhada num jornal.
(Não conseguimos averiguar qual, mas queremos acreditar que as páginas do Sacanas com Lei não andam a servir para esconder armas brancas.)
Mihai admite saber que a conduta era punida por lei, mas adianta ter razões "fortes, sérias e muito importantes", que "todos vão compreender", para ir passear uma arma daquelas dimensões para um local público.
"Doutora, é verdade, ter essa arma comigo. Porque ando a ser perseguido. Há pessoas que me querem bater. Só fui ao centro comercial para pedir ajuda à polícia... ou a... outra pessoa que pudesse.. porque ando a ser perseguido."
A juíza estuda-o com olhos de míope.
"E por que levou esta faca?"
"Para me defender. Porque estas pessoas querem-me... Como se diz? Matar. São os meus inimigos."
"Isso que tem aí no olho tem alguma coisa a ver com isto?"
"Sim, foram estes inimigos, que juraram que me vão matar. Foi na terça-feira que levei a primeira porrada. Foi isto no olho e tenho mal nas costelas. Até fui ao hospital."
Atendendo ao ar de pânico de Mihai é impossível que uma sala inteira de audiência não fique a temer pela vida do homem. Está bem que a postura é calma, mas os nervos estão-lhe todos, aos montinhos, a saltar da voz.
"Eu temo... pela minha vida. Acho que vou morrer. Eles dizem que me vão matar. Tenho medo de sair à rua, por isso andava com a faca. Vai ser em breve, eles disseram que ia ser para breve."
E este é o momento em que não se sabe se Mihai está a puxar pela memória, ou se é já a memória toda passada para a imaginação, como dizia o poeta O''Neill.
Certo é que procuradora e juíza se compadecem e se concentram apenas naquele hematoma e no discurso de medo, ignorando que o arguido, como consta nos autos, é suspeito pela polícia de outros crimes que envolvem bisnagas e multibancos. Coisas que não vêm ao caso.
A juíza lembra que este crime é punido com um máximo de quatro anos de prisão, mas na hora H aplica apenas pena de multa - 200 dias, à taxa diária de cinco euros -, por entender que os motivos apresentados "circunstanciam a conduta": a faca terá sido usada numa perspectiva de defesa e não de agressão, porque o arguido "se sentia desprotegido".
No final, há um pequeno problema por resolver. "Onde é que o arguido vai ser notificado para receber a multa?"
Sem morada, a viver na rua, não é provável que o carteiro vá à sua procura para os parques de Moscavide. Por isso, a juíza, outrora branda, manda de esticão uma tirada severa. "Assim como estes seus inimigos o encontram, a polícia também o pode encontrar."
Mas a esta hora Mihai só consegue sentir alívio. Uma multa que tem todos os indícios de vir a perder-se entre tribunais e caixas de correio não é coisa importante. O importante é que Mihai se salvou. Os seus inimigos estavam ao seu alcance, o perigo estava iminente. Sorte graúda os agentes terem chegado primeiro. Não fosse a arma embrulhada num jornal e sabe-se lá onde a esta hora estaria embrulhado Mihai.
Sílvia Caneco, aqui
