Há muitos mitos.
Uns são urbanos, outros económicos e também há os nacionais.
São todos falsos, obviamente. Mas por via da arte e do engenho de muitas cabecinhas pensadoras conseguem durar imenso tempo.
Até que um dia, de repente, caem por terra e poucos são os que derramam uma lagrimazinha pelo defunto. A economia portuguesa não é flor que se cheire, os empresários portugueses, na sua grande maioria, não são flores que se cheire e os políticos portugueses, com raríssimas excepções, não são flores que se cheire.
Olha-se para o universo empresarial português e percebe-se que é constituído em grande parte por micro e pequenas empresas que trabalham para o mercado interno. As médias são em pequeno número e as grandes vivem e sobrevivem à sombra do papá Estado, que lhes dá muitas obras públicas, muitas parcerias público-privadas sem risco e as protege ao máximo da concorrência dos maus, isto é, dos estrangeiros, particularmente se forem espanhóis.
Aí a porca torce o rabo, grita-se por Portugal, os olhos ficam marejados de lágrimas e renega-se o inimigo espanhol. É bom lembrar aqui e agora a OPA lançada pela Sonae à PT e as fitas protagonizadas pelos executivos da empresa de telecomunicações. Ficaram zangados com a espanhola Telefónica, que apoiava Belmiro de Azevedo, tiraram as contas do Santander, que dava o suporte financeiro à operação, e tiveram à porta da assembleia-geral que inviabilizou a OPA uma estridente manifestação nacionalista, em que o benemérito Joe Berardo foi entusiasticamente saudado pela comissão de trabalhadores da PT.
udo muito bonito. E, já agora, convém recordar a indignação nacional provocada pela OPA do BPI ao BCP, tudo porque o banco de Fernando Ülrich tem accionistas espanhóis e brasileiros. Nessa ocasião patriótica saltaram para a praça pública Cavaco Silva, Vítor Constâncio e Ricardo Salgado, entre outros, a defender com unhas e dentes os centros de decisão nacional. Em nome desses tais centros, que basicamente servem para proteger muitos incompetentes das regras do mercado e da saudável concorrência, o Estado, socialista ou social-democrata, tanto fazia, manteve anos a fio as malfadadas golden share nas principais empresas nacionais.
Golden share que davam para tudo e mais alguma coisa. Colocar boys em bons lugares e vetar negócios que não serviam os interesses de certos grupos protegidos pelo partido que estava momentaneamente no poder. A prática que sempre contou com o apoio dos patriotas do PCP e dos nacionalistas do Bloco de Esquerda, que viam nas famigeradas golden share uma imitação quase perfeita das nacionalizações dos anos heróicos da revolução. Contra tudo e contra todos, nomeadamente contra Bruxelas e as decisões de várias instituições europeias.
Agora, em pouco mais de dois meses, acabou tudo. O Estado perdeu os direitos especiais na PT, na Galp e na EDP. E com o Estado ficaram a descoberto um conjunto de accionistas nacionais que só existem encostados a esse mesmo Estado. Os centros de decisão nacional já eram. Sempre foram uma enorme farsa.
Deixem-nos em paz.
António Ribeiro Ferreira, aqui
