quarta-feira, 31 de agosto de 2011

A HISTÓRIA DO LAVADOR DE VIDROS QUE NÃO CONSEGUE PARAR DE INSULTAR POLÍCIAS

João Alberto parece sofrer de uma estranha doença: cada vez que se cruza com homens fardados não consegue parar de os injuriar.

Pela boca morre o peixe e, pela boca, o lavador de vidros do Fundão acaba detido na esquadra.

Um bom psiquiatra talvez consiga explicar o que se passa na cabeça de João Alberto - um lavador de vidros que cada vez que se cruza com homens fardados parece sofrer de uma síndrome rara: não consegue parar de os injuriar. Sem saber bem como, solta- -se-lhe o primeiro palavrão. Morde a língua. Irrita-se consigo mesmo. Mas quando se dá conta, já saiu o segundo. E por aí adiante, até acabar inevitavelmente na esquadra, a boca cosida de raiva e inquietação.

O estranho síndrome-de-tourette-especificamente-direccionado-para-agentes-da-autoridade premiou o lavador de vidros, mais uma vez, com uma visita ao tribunal. Bigode meticulosamente aparado, água- -de-colónia à moda antiga e uma pilha de nervos em cima. O juiz ainda tenta amenizar a coisa e pergunta-lhe se está na disposição de pedir desculpa aos dois agentes que injuriou desta vez, por escrito. João Alberto, sem saber onde pôr as mãos, todo ele ansiedade, diz logo que sim. Claro que sim. E nunca mais voltará a acontecer, sotôr juiz. Mas os dois agentes, Fernando e Pascal, não vão em pedidos de desculpa e insistem que o lavador de vidros tem de ser julgado. "Porque as injúrias foram demasiado graves." Assim sendo, o juiz não vê outro remédio senão julgar João Alberto, acusado de dois crimes de injúria agravada - um por cada agente.

O homem que não consegue deixar de dizer palavrões na presença da polícia em geral é do Fundão, mas empregou-se em Lisboa a lavar vidros, um part-time de segunda a sábado, entre as 16h30 e as 20h30, que lhe rende 247 "eros" mensais. A desgraça aconteceu-lhe já na capital, à porta de casa, era meia-noite e meia. A PSP diz que foi chamada "ao local" porque havia "notícias" de ruído. Mas quando Fernando e Pascal chegaram ao lote 331, esperava-os João Alberto que, hospitaleiramente, os recebeu com um conjunto de frases amigáveis. O juiz repete-as pausadamente e sem piiis que possam amenizar a situação. "Aí vêm os palhaços, não fazem nada, já não preciso de vocês"; "Estes gajos estão aqui e vocês não fazem nada, seus filhos da puta"; "Já toda a merda é agente da autoridade, vão para a c*** da vossa mãe". Pela boca morre o peixe e, pela boca, João Alberto foi parar à esquadra.

Agora sentado no banco dos réus, confessa que é tudo verdade. Palavra por palavra. Mas houve um contexto. Um contexto que explica aquela irritação. Um contexto capaz de enervar qualquer homem de bem.

"Que contexto, senhor João?"

E o lavador de vidros lá explica o que pode levar um bom homem a injuriar dois polícias numa noite de Verão.
"Eu fui a uns anos a casa de uma pessoa amiga e estava a regressar ao meu prédio, que tem duas portas, uma na frente e outra traseira. Quando entrei, vi um casal a fazer poucas-vergonhas no átrio. Estava uma rapariga a fazer relações com um rapaz, ''tá a perceber, sotôr? Fui à esquadra da PSP queixar-me, mas os agentes não fizeram nada e ainda se riram de mim. Voltei ao prédio. Quando lá cheguei, a pouca-vergonha ainda durava, eu disse-lhes para saírem dali e eles disseram que eu não tinha nada a ver com a vida deles. Voltei à PSP e, depois, ao prédio. Quando cheguei, a porta traseira estava aberta e o casal já lá não estava. Passado um bocado, os agentes apareceram e eu enervei-me..."

"E porque é que lhes chamou estes nomes todos?", pergunta o juiz, claramente desconfiado da insólita explicação.
"Enervei-me e... enervei--me... não queria ofendê-los."

João Alberto ameaça rebentar numa crise de arrependimento puro a qualquer momento. E, vendo bem, até tem razões para isso. O crime de injúria agravada pode render-lhe uma pena de prisão entre dois e seis meses. E consta que na cadeia não há vidros para limpar: é mais grades. E não são de cerveja.

"Já tinha tido problemas com eles, antes?"
"Não, dou-me bem com toda a gente do prédio."

"Não, com os agentes..."
"Ah. Isso também não", responde João Alberto, que no fim de tudo leva para casa um "cheque-prenda" de 500 euros de multa.

Por não ter dinheiro, o lavador de vidros diz que vai cumprir a pena em trabalho comunitário. Longe de esquadras da polícia e de fardas em geral, não vá o diabo tecê-las.

Rosa Ramos, aqui