O padrão em quase toda a Europa tem sido o mesmo: quem está no poder sofre desgaste. Em quase todos os países cresce quem está na oposição e os partidos de fora do centrão, seja à direita ou à esquerda.
Mesmo na Alemanha, que tem beneficiado com a actual crise, a CDU tem sido penalizada e os "Verdes" têm capitalizado o descontentamento.
Se tudo isto é verdade, basta olhar com atenção para os resultados eleitorais nos vários países para perceber que o centro-esquerda tem sido mais duramente penalizado do que a direita. O que não deixa de ser extraordinário se tivermos em conta que vivemos uma crise que resulta da aplicação da agenda da direita liberal, que desregulou mercados, obrigando os Estados a endividar-se para salvar a economia. Na realidade, a direita conseguiu fugir às suas responsabilidades e, apesar de todas as evidências, convenceu os cidadãos de que a crise que estamos a viver resulta da falência do Estado Social. Só a esquerda pode ser responsabilizada por esta inversão completa de todos os argumentos.
No momento em que a receita liberal provou a sua inadequação à realidade faltou ao centro-esquerda, no poder em vários países, a capacidade de aproveitar a oportunidade. Quando se salvaram os bancos não se aproveitou o momento de fragilidade das instituições financeiras para impor regras severas e mudar de forma radical o funcionamento da economia, travando a loucura do capitalismo de casino. Deixou-se para mais tarde. E mais tarde foi tarde demais. Os abutres voltaram e não foi para agradecer. Foi para aproveitar a crise que eles próprios criaram para se reerguerem à custa dos contribuintes. Socialistas e social-democratas (não me refiro ao embuste português) perderam a sua oportunidade e deixaram que outros escrevessem o guião desta crise.
A esquerda mais radical não está também isenta de culpas. Em vários países, não percebeu que esta era o momento para estar disponível para entrar no barco do poder e pressionar uma social-democracia desorientada. Na ânsia de crescer com o descontentamento, contentaram-se com as migalhas. O bolo ficou para a direita, que aproveitará o momento para dar a machadada final no Estado Providência.
Neste momento, o centro-esquerda está num beco sem saída. Depois de anos a liderar os destinos da Europa sem ser capaz de prever o que aí vinha e cedendo a terceiras vias da moda, depois da oportunidade perdida de 2008, depois de gerir a crise que se seguiu sem firmeza contra os que por ela foram responsáveis, tem poucos argumentos junto dos eleitores. Ser apenas o gestor brando de uma austeridade criminosa não mobiliza ninguém.
Como os manifestantes da Porta do Sol ou a "geração à rasca" portuguesa, a tradicional base social de apoio da esquerda europeia está órfã. São cada vez mais os que não acreditam em nenhum dos partidos e se preparam para engrossar as fileiras dos abstencionistas ou para se render à direita, que ao menos faz com o convicção o que os socialistas fazem sem empenho. Em tempos como estes, as meias-tintas não dizem nada a ninguém.
A travessia no deserto de socialistas e social-democratas europeus pode ser uma oportunidade. Antes de mais, para eles próprios. Têm, nesta crise, e de uma vez por todas, de escolher o lado em que estão. A retórica da defesa do Estado Social enquanto ajudam à sangria dos cofres do Estado para a banca não pega por mais tempo. Mas também para as forças que estão à sua esquerda, que estão obrigadas a perceber que vivemos novos tempos, em que as clivagens do pós-guerra e da guerra fria fazem já pouco sentido. Têm de ser um elemento eficaz de pressão para conseguir reagrupar forças e para obrigar o renitente centro-esquerda a mudar de rumo.
Se uns e outros falharem mais uma vez não serão apenas as conquistas sociais do século XX que estarão em causa. Será a democracia. Os que outrora lhes deram força para garantir cinquenta anos de prosperidade e direitos sociais rumarão para políticos populistas, nacionalistas e inimigos da liberdade. E aí, meus caros amigos, ainda teremos saudades destes tempos que vivemos.
Daniel Oliveira, aqui
