Carmo e Trindade olham os dois para o as ruínas do convento, à procura de alívio, perante a insustentável situação de um país moribundo e sem alternativas governativas.
Estão os dois sentados na esplanada ensopada de um sol que não aquece. Ambos na meia- -idade, ele muito aprumado de blazer, camisola de decote em V e gravata escura, ela de cabelos encaracolados, rímel pesado nos olhos, vestido florido. Tratam-se com uma formalidade cúmplice.
Ele - Isto está mau! Muito mau, mesmo. - Encolhe os ombros, irritado.
Ela - Então eu não sei? - Sacode o cabelo, a afastar os pensamentos negativos.
Ele -Mas ó Trindade, viste o rating? O FMI é mais do que certo.
Trindade - Então não vi, Carmo? O que queres, o Cavaco não faz nada! Um Presidente de direita, o que é que tu esperas, ó homem?
Olham os dois para as ruínas do convento, à procura de alívio.
Carmo - O que querias que ele fizesse? O Sócrates entalou-o.
Trindade - Entalou-o? Ele é que se armou com o PSD para deitar o Sócrates abaixo. Criticam, criticam, mas não apresentam alternativas. É tudo farinha do mesmo saco, tudo de direita.
Agora olham para o quartel, a ver se os guardas de plantão podem fazer alguma coisa.
Trindade - O Sócrates não sabe governar, o PSD não tem ideias. São os dois a mesma coisa.
Carmo - Não me digas uma coisa dessas! Se não fossem o PS e o PSD, quem é que governava? O CDS-PP não tem massa crítica.
Trindade - Precisávamos era de um governo de esquerda. De verdadeira esquerda!
Carmo - Sim... Querias o Bloco a governar... Mas olha, não vais longe, porque eles não querem. Nem o PCP. Só querem criticar.
Olham um para o outro, assertivos.
Trindade - E então não é de criticar? Olha o que os governos de direita têm feito!
Carmo - Peraí, Trindade! O PS e o PSD não são a mesma coisa.
Calam-se, presos num beco sem saída. Carmo beberica o seu café com leite, Trindade enche outra xícara de chá de ervas biológicas.
Trindade - Não sei como é que isto aconteceu. Parecia que estávamos no bom caminho. Até ao fim da Expo''98 era só festa!
Carmo - O que aconteceu foi que em 2000 acabaram os fundos europeus. Sem apoios, não nos safamos. E casa onde não há pão...
Trindade dá um salto na cadeira, como se acordasse dum torpor.
- Mas tens de concordar que foi o Cavaco que estourou os fundos, quando tinha a maioria. Aqueles ladrões, foi nessa altura que se começaram a encher!
Carmo bate com a mão na mesa.
- E lá vens tu! Então não foi o Guterres que derreteu a massa toda com a Expo? Os xuxas, já se sabe! Para gastar e para meter no bolso não há como eles.
- O mal deste país é que nunca teve um governo de esquerda! É só bloco central, roubalheira e cimento.
- Nunca teve um governo de esquerda? Nunca teve outra coisa! O mal deste país são as manias socialistas. O Estado social... Não há dinheiro para Estados sociais.
Segue-se um longo silêncio. Carmo suspira. O tom é mais conciliatório.
- Olha, já reparaste que estamos a dizer as mesmas coisas há que tempos? Deve haver milhares de pessoas a dizer isto todos os dias. Criou-se um impasse e não há uma solução que nos valha.
Trindade olha para ela com bonomia.
- Tens razão... Assim tivéssemos uma solução. No fundo... No fundo estamos entalados com estes tipos.
Calam-se outra vez. É de cortar o coração.
José Couto Nogueira, aqui
