terça-feira, 29 de março de 2011

SOMOS TODOS AVES RARAS COM PROBLEMAS DE EXPRESSÃO

Estamos numa galeria à espera de uma pessoa. É possível que ela não venha. Ou que já cá esteja e não tenhamos dado conta da sua chegada. Não sabemos.

Os que esperavam por Godot também não sabiam grande coisa. Aqui tudo é invisível. Museu da Invisibilidade, chamam-lhe, o que não é grave porque, segundo dizem, o essencial escapa sempre à retina. Mesmo que Susana Pomba não apareça, ela já chegou até aqui. Fique descansado: não é preciso conhecê-la à letra para perceber o que se vai passar a seguir, mas ajuda conhecer o seu blogue: missdove.blogspot.com. Se sabe de quem falamos dispense a visita e passe para o próximo parágrafo.

Susana Pomba é teatro e não é. Os cinco elementos do grupo The End of Irony dão corpo ao texto numa mixtape com direito a actuação ao vivo dos PAUS, intercalada por Leonard Cohen e outros nomes que imortalizaram Susanas em canção.

André e Teodósio, membro fundador do Teatro Praga, assina o texto e encena, depois de ter celebrado uma espécie de harakiri nas suas últimas apresentações. Cansou-se de falar dele próprio e deu espaço aos amigos. Continuaremos a gravitar em volta do umbigo do artista? Sim e não.

A Pomba de que se fala faz história, mais que não seja hoje. Pouco se vê, mas está em todo o lado. Regista em imagens um tempo voraz, de trabalhos e relações precárias, de expectativas goradas e uma catadupa de problemas de tradução, ou expressão. Se está na casa dos 30 vai perceber em dois tempos que esta amiga podia ser sua e que andamos todos à procura do mesmo.

"A forma do espectáculo tinha que estar ligada ao conteúdo. O que é que ela faz? Não sei. Tanta coisa. É uma zona quase surreal. Todos já tivemos contacto com ela sem saber muito bem como. É sintomática de uma coisa que só pode acontecer agora, nesta década e nesta cidade. Não quero que seja universal, mas nem tem que ser."

E pouco importa se a memória lhe reserva espaço amanhã ou se fica apenas pelo domínio do mito urbano. "O objectivo é registar os nomes incógnitos, transformar os amigos em protagonistas de coisas que ficaram por contar. Não sei se ficarão para a História, mas passarão a ter um bilhete de identidade."

Pouca coisa é marcada ao longo da sessão. Há muito espaço para momentos imprevisíveis nesta manta de retalhos de anotações em caderninhos antigos que André resgatou do fundo do baú.

Depois de Susana Pomba, seguem-se textos dedicados a Paula Sá Nogueira e Manuel Reis. "Quero fazer com os amigos todos, já que somos um bocadinho de todos eles. Não gosto de muita gente e queria perceber porque gosto deles, porque exercem certo fascínio."

"Ah, vê lá o que é que tu fazes!", advertiu uma hesitante Susana, a amiga do famoso carro azul com a inscrição "I Could Live Forever", quando soube que ia inaugurar o ciclo. Desfeita a ansiedade, acrescentou mais um capítulo à história. Levou a máquina fotográfica para os ensaios e o resultado está no sítio online do costume.

Maria Ramos Silva, aqui