AI QUE HORROR!
Há pessoas que têm medo de ratos, pessoas que têm medo de lagartixas, pessoas que têm medo de aranhas.
De facto, há pessoas muito medrosas.
A senhora desta história tinha medo de tudo, sobretudo de ratos, de lagartixas e de aranhas. Juntos ou separados, tanto lhe fazia, que dava sempre um grito:
- Ai, que horror!
O grito arrepiado dela tinha sempre o condão de assustar os ratos que fugiam para um lado, as lagartixas que fugiam para o outro e as aranhas que não sabiam para que lado fugir. Uma grande aflição para os pobres dos bichinhos, que quase morriam de susto, quando a senhora gritava:
- Ai, que horror!
Tanto assim era que os ratos, as lagartixas e as aranhas resolveram reunir-se numa assembleia, para discutirem as medidas a tomar neste complicado caso da senhora que tinha medo deles como eles tinham medo dela. Entende-se?
Os ratinhos eram os mais assustadiços.
- Quando ela grita "Ai, que horror!", fico gelado de medo - queixava-se um.
- É um disparate, porque nós não fazemos mal a ninguém - acrescentava outro. - Se ela se deixasse daquele grito estridente, nós vivíamos mais tranquilos. Nem quero imaginar que bom seria.
Depois das lamentações, as discussões. Depois das discussões, as decisões. Com votações.
A proposta mais votada, depois da renhida discussão, continha alguns riscos e exigia o sacrifício e a coragem de alguns voluntários. Além disso, para levá-la a cabo, era preciso esperar até às proximidades do Natal.
A senhora medrosa enfeitava sempre um pinheirinho com bolas e fios de prata, durante a época natalícia. Estava mesmo a calhar para o desenvolvimento do projecto.
Numa das tardes da véspera de Natal, em que a senhora tinha ido às compras, os ratos mais habilidosos pintaram-se uns aos outros com baton muito vermelho. Da caixa das pinturas da senhora tiraram outras tintas, com que besuntaram as lagartixas. Depois foram pendurar-se na arvorezinha, a fazer concorrência aos frágeis globos de vidro, que já enfeitavam o pinheiro.
Por sua vez, as aranhas esmeraram-se na arte de tecer uma entrançada teia que rodeou o pinheirinho, como pinceladas de neve.
Quando a senhora voltou a casa, ela que, na rua, não usava óculos, e acendeu a luz da sala e viu com os olhos míopes a árvore de Natal, ficou estarrecida.
Não se lembrava de ter engrinaldado o pinheiro com tantos ornamentos. A árvore estava uma maravilha, repleta de globos, como frutos vermelhos, que baloiçavam suavemente. E toda coberta de prata.
Na base e subindo pelo tronco, um tufo de musgo, singularmente azul, cor de rímel, parecia ondular. O que seria?
A senhora aproximou-se, extasiada. Tocou num dos tais frutos vermelhos, pegou-o com os dedos e foi buscar os óculos. Quando os pôs gritou:
- Ai que...
Agitou-se a arvorezinha da base aos mais altos ramos. E a senhora, de novo:
- Ai que...
Era um momento culminante. A árvore iria ficar, repentinamente, sem enfeites?
- Ai que... Ai que... engraçado - disse, enfim, a senhora. - Parece um Pai Natal pequenino. Parece um ratito Pai Natal. Não me recordo nada de ter posto este brinquedo na árvore. Parece um ratito vermelho. Tão engraçadinho!
E a senhora apertou o ratinho, que gemeu de dor.
- É um boneco de borracha - concluiu a senhora, apertando com mais força.
- Ui! - chiou o ratinho.
Então a senhora gritou, apavorada:
- É um rato encarnado. Ai que horror!
Debandada geral, na árvore. A tempo de a senhora gritar, com aquela voz de corneta constipada:
- Ratos encarnados! Lagartixas azuis! Aranhas de prata! Ai, ai, ai, que horror horrível!
Tanto trabalho para nada. Os bichinhos desta história, ao fim de um certo tempo, lá se recompuseram do susto, mas do desânimo não. Voltava tudo ao mesmo.
Vá que vá, que não voltou... Daí em diante, a senhora passou a só ter medo das lagartixas azuis, de aranhas de prata e de ratos encarnados. Aos ratos cinzentos, às aranhas pretas e às lagartixas verdes deixou de ligar.
E, sem mais sustos mútuos, todos viveram em boa paz.
António Torrado e Cristina Malaquias, aqui
